Quando pensamos em autismo, a imagem que muitas vezes vem à mente é a de um menino com dificuldades de socialização e interesses restritos. Essa visão estereotipada, perpetuada por décadas na mídia e até mesmo na literatura médica, deixou uma população inteira nas sombras: as mulheres autistas. Por muito tempo, acreditou-se que o autismo era raro em meninas. Hoje, a ciência sabe que isso não é verdade. Elas não eram raras, eram invisíveis, mestras em uma arte de sobrevivência exaustiva conhecida como camuflagem social (ou “masking”).
A camuflagem social é o processo, muitas vezes inconsciente, de observar, analisar e imitar o comportamento neurotípico para se encaixar e evitar o bullying ou a exclusão. Desde pequenas, meninas no espectro aprendem a forçar o contato visual, a ensaiar conversas no espelho, a copiar os gestos e as expressões faciais de suas colegas. Elas criam um “script social” para cada situação, uma persona cuidadosamente construída que esconde seu verdadeiro eu.
Enquanto um menino autista pode expressar sua sobrecarga sensorial com uma crise externa (uma “birra”), uma menina autista aprende a internalizar. Ela pode parecer quieta e tímida na escola, mas desmorona em casa, em um ambiente seguro, após um dia inteiro de atuação. Seus interesses intensos, em vez de serem em trens ou dinossauros (estereótipos masculinos), podem ser em cavalos, literatura ou psicologia, temas considerados mais “aceitáveis” para meninas, o que os torna menos visíveis como um sinal de autismo.
Essa camuflagem tem um custo altíssimo. A energia mental necessária para manter a máscara o dia todo leva a uma exaustão crônica, ansiedade e depressão. Muitas mulheres autistas passam a vida com diagnósticos incorretos de transtorno de ansiedade, bipolaridade ou borderline, sem nunca chegar à raiz de suas dificuldades. Elas se sentem como uma fraude, constantemente com medo de que sua verdadeira natureza seja “descoberta”.
Reconhecer o autismo em mulheres é um ato de justiça. É entender que a ausência de sinais óbvios não significa a ausência de luta. Significa, muitas vezes, uma luta ainda maior, travada em silêncio. É preciso que profissionais de saúde, educadores e a sociedade em geral aprendam a olhar para além da superfície, a perguntar sobre o custo interno da socialização, a reconhecer a exaustão por trás do sorriso ensaiado. Dar visibilidade às mulheres autistas é validar suas experiências, permitir que elas finalmente tirem suas máscaras e descubram a força e a beleza de sua autêntica neurologia.